Mercado de Amendoim Dividido: Fraqueza nos EUA, Aperto na Argentina, Cortes no Brasil, Índia Disruptiva
Mercado global de amendoim segue misto: preços nos EUA caem com boa safra, Argentina firme com oferta apertada, Brasil corta área em 30%, Índia com forte safra mas estrangulamento logístico.
Preços & Movimentos Regionais
Os preços de estoque de produtor nos EUA recuaram para cerca de 0,23 USD/lb no final de maio, refletindo a melhora nas condições das lavouras e o rápido avanço do plantio, mesmo com os agricultores reduzindo as vendas antecipadas. O mercado spot doméstico da China está amplamente estável, com Henan em torno de um piso de custo e os futuros ligeiramente mais firmes na comparação semanal, mas ainda abaixo do ano passado. As indicações de exportação da Argentina permanecem firmes em 1.450–1.500 USD/MT para 40/50 branqueado e 1.575–1.600 USD/MT para 38/42 branqueado, sustentadas pela oferta apertada no curto prazo e dúvidas sobre a qualidade.
A Índia mostra um tom moderadamente firme nos segmentos de semente e Java, impulsionada pela forte demanda por semente e um prêmio para boa qualidade; sementes premium no mercado doméstico negociam aproximadamente na faixa baixa de 1,3 EUR/kg após conversão, enquanto tipos bold orientados à exportação de Gujarat e Nova Délhi pairam ligeiramente acima de 1,0 EUR/kg FCA/FOB. As cotações FOB de amendoim cru do Brasil em torno da faixa média de 1,1–1,2 EUR/kg sugerem que o corte de 30% na área ainda não se traduziu em uma recuperação significativa de preços, em parte porque compradores globais ainda veem origens alternativas adequadas.
Panorama de Oferta & Demanda
China continua estruturalmente com excesso de oferta. Os estoques de safra antiga são amplos, as importações do Sudão e do Senegal são confortáveis, e a demanda a jusante, tanto do setor de alimentação quanto de esmagamento, é fraca. As indústrias de óleo reduziram os preços de compra apesar das margens de esmagamento ainda positivas, o que evidencia uma postura cautelosa. Ainda assim, os valores spot em províncias-chave como Henan estão encontrando um piso, e os futuros subiram um pouco, sugerindo que o suporte de custo e as vendas limitadas por parte dos produtores estão começando a limitar a queda.
O desempenho exportador da China é um contraponto altista discreto, porém importante: as exportações de janeiro dispararam para quase 45.000 toneladas, contra cerca de 14.000 toneladas um ano antes, com a Indonésia e outros compradores do Sudeste Asiático absorvendo grande parte do volume. Isso está reequilibrando gradualmente os estoques domésticos mesmo com a continuidade das importações e, se o clima se tornar menos benigno mais à frente em 2026, o excedente confortável de hoje pode se erodir mais rápido do que o mercado precifica atualmente.
Argentina está na ponta oposta do espectro. Apesar de uma safra recorde em 2025, as disponibilidades exportáveis para a Europa Ocidental estão mais apertadas do que o esperado devido a persistentes problemas de qualidade e atrasos na chegada da nova safra. Dados iniciais de colheita apontam para rendimentos abaixo da temporada anterior, e o risco de geadas está elevando as preocupações com a qualidade do grão. Os compradores europeus parecem bem cobertos para o segundo semestre de 2026, o que tempera a demanda spot, mas as posições de curto prazo para Roterdã permanecem apertadas e provavelmente seguirão firmes até que haja maior clareza sobre qualidade e volume.
Estados Unidos contribuem para a narrativa de conforto global. O plantio atingiu cerca de três quartos da área prevista, com 58% da safra classificada como Boa a Excelente e apenas uma pequena parcela em condição Ruim a Muito Ruim. Isso sustenta as expectativas de uma colheita sólida em 2026 se o clima em junho colaborar e já pressionou os preços para baixo. A relutância dos produtores em vender nos níveis atuais, porém, limita o potencial de queda e pode rapidamente se reverter caso o clima fique quente e seco.
Brasil é o principal fator de incerteza de médio prazo. Um corte acentuado de 30% na área plantada após os fracos retornos ao produtor na última temporada é um claro sinal de alerta para a disponibilidade em 2026/27. Por enquanto, as exportações para Rússia, UE e Argélia permanecem robustas e os embarques de óleo de amendoim para a China estão crescendo, indicando um escoamento eficiente da safra reduzida. Mas, se a área não for recomposta no próximo plantio, o papel do Brasil como fornecedor flexível para Europa e Ásia pode diminuir, forçando os compradores a depender mais fortemente de Argentina, EUA e Índia.
Índia adiciona oferta no curto prazo, mas com ressalvas importantes. A safra de verão de Gujarat deve subir cerca de 10% na comparação anual, para 125.000 toneladas, e as chegadas aos mercados-chave devem aumentar nas próximas semanas. A demanda por semente é o principal motor, com a área de monção (kharif) devendo se expandir apoiada em preços atrativos para semente. Contudo, uma ampla escassez de diesel elevou os custos de frete em até 50% e desacelerou os fluxos aos portos, aumentando os níveis de basis e potencialmente sustentando os preços domésticos apesar da maior produção total.
No front das exportações, a Índia está limitada pela suspensão contínua das importações pela Indonésia e pelas regras de certificação GAP ainda não resolvidas. Sem novas cotas ou orientações claras, os fluxos comerciais para esse mercado-chave estão, na prática, congelados. Alguma flexibilização dos requisitos de GAP é possível, mas, até ser formalizada, a Índia terá dificuldade para monetizar sua safra maior no mercado internacional, deixando mais volume para ser absorvido internamente ou vendido a mercados secundários com valores descontados.
Fundamentos & Clima
Fundamentalmente, quatro vetores dominam o balanço atual: o excedente de estoques da China, o gargalo de qualidade da Argentina, o corte de área plantada no Brasil e as restrições logísticas e regulatórias da Índia. Os preços estáveis do óleo de amendoim na China e as margens de esmagamento ainda positivas fornecem um piso para o grão, mesmo que o farelo de amendoim concorra mal com o farelo de soja mais barato. Os futuros na CZCE estão marginalmente mais altos na comparação semanal, mas 1–3% abaixo do ano passado, em linha com um mercado com excesso de oferta, porém em processo de estabilização.
Os movimentos cambiais são moderadamente favoráveis para exportadores fora do Brasil. A valorização de cerca de 8–9% do real brasileiro no acumulado do ano frente ao dólar corrói a competitividade brasileira e compensa parcialmente qualquer alta de preço decorrente da redução de área. Em contraste, a contínua desvalorização do peso argentino e a relativa estabilidade da rupia indiana sustentam as margens de exportação onde os volumes conseguem fluir, enquanto um yuan praticamente estável deixa a paridade de importação chinesa amplamente inalterada.
O risco climático está aumentando para o segundo semestre de 2026. No sudeste dos EUA, previsões de médio prazo apontam para condições sazonais a ligeiramente mais frias em meados de junho, o que deve ser amplamente favorável ao desenvolvimento inicial da safra se a pluviosidade se mantiver adequada. Na Índia, porém, tanto previsões oficiais quanto privadas agora apontam para uma monção de 2026 mais fraca que o normal, com preocupação particular para estados com forte peso de oleaginosas, como Gujarat e Maharashtra. Isso eleva o risco de baixa para a safra kharif de amendoim, apesar da forte colheita de verão atual.
Na Argentina e no Brasil, o clima no curto prazo é mais uma história de qualidade e logística do que de volume. As preocupações com geadas na Argentina podem reduzir ainda mais a parcela da safra que atende aos altos padrões de qualidade da UE, enquanto a seca persistente ou chuvas irregulares no Brasil complicariam as decisões sobre recompor ou não a área plantada na próxima janela de semeadura. Qualquer confirmação de menor disponibilidade exportável da América do Sul para 2026/27 apertaria de forma relevante o balanço futuro.
Perspectiva de Trading & Direção em 3 Dias
Pontos de Estratégia
- Compradores europeus: Usem as ofertas atuais da Argentina e do Brasil para estender a cobertura até o 4T de 2026 sempre que possível, mas diversifiquem o mix de origens com opções dos EUA e da Índia, dada a incerteza de qualidade e regulatória na Argentina e o risco de área no Brasil.
- Compradores asiáticos: Aproveitem o mercado doméstico da China, que está se estabilizando, mas ainda suave, e as restrições de exportação da Índia para negociar preços favoráveis no curto prazo, ao mesmo tempo garantindo opcionalidade para 1T–2T de 2027 caso a oferta da América do Sul se aperte.
- Produtores no Brasil e nos EUA: Considerem escalonar hedge ou vendas futuras em altas moderadas; o espaço de queda a partir dos níveis atuais é limitado pelo aumento do risco climático e de área, mas um pano de fundo de demanda mais lenta não justifica esperar um forte rali imediato.
- Exportadores indianos: Foquem em gerir logística e prêmios de qualidade no mercado de semente, mantendo flexibilidade para acelerar rapidamente as exportações caso a Indonésia retome as importações ou se a demanda alternativa no Sudeste Asiático se fortaleça.
Direção de Preços no Curto Prazo (Próximos 3 Dias)
- UE (CIF Roterdã, branqueado argentino/brasileiro): Lateral a levemente firme, com posições de curto prazo sustentadas pela disponibilidade apertada argentina e vendas cautelosas do Brasil.
- Ásia (CFR portos principais, origem indiana & chinesa): Amplamente lateral; a firmeza na Índia, puxada pelo frete, é compensada pelos estoques ainda elevados da China e pelo interesse de compra moderado.
- EUA (estoque doméstico de produtor): Viés levemente mais fraco à medida que as boas condições iniciais de safra prevalecem, embora qualquer início de calor ou déficit hídrico estabilize ou reverta rapidamente a tendência.