A safra recorde de soja 2025/26 do Brasil comprime as exportações dos EUA à medida que a China muda suas compras. Visão concisa de preços, fluxos comerciais e perspectivas de curto prazo em EUR.
Prices
Os contratos futuros de soja na CBOT recuaram ao longo do último mês, em cerca de 5–6%, mas ainda permanecem cerca de 9% acima do nível de um ano atrás, refletindo uma oferta confortável, porém com prêmios de risco persistentes ligados ao clima e a fatores macroeconômicos. Nos mercados físicos, o grande excedente exportável do Brasil continua a limitar a alta, com projeções de exportação para junho sendo sucessivamente revisadas para cima por associações de exportadores.
Convertidas em EUR, as ofertas indicativas recentes de exportação situam-se aproximadamente na faixa de EUR 430–450/t para origens padrão como o Golfo dos EUA, com o Brasil geralmente negociando com desconto. Nesse contexto, as indicações de plataforma mostram:
A combinação da queda nos valores não transgênicos do Mar Negro e do enfraquecimento dos benchmarks globais confirma um viés levemente baixista para soja de farelo, enquanto o segmento premium na China permanece apertado e resiliente em preço.
Supply & Demand
Os relatos de mercado para 2025/26 apontam para uma produção global de soja acima de 180 milhões de toneladas somente no Brasil, um claro recorde histórico. Os volumes de exportação devem ultrapassar 110 milhões de toneladas, com o Brasil mantendo uma vantagem de preço decisiva que continua a comprimir a participação dos EUA. Isso é corroborado por projeções oficiais e privadas na faixa de 177–180 milhões de toneladas e metas de exportação em torno de 112–115 milhões de toneladas.
Os embarques brasileiros seguem robustos, apesar de algumas oscilações mensais. A previsão da ANEC no início de junho para exportações de soja em torno de 12,36 milhões de toneladas implicava uma queda temporária de 10% na comparação anual, mas revisões subsequentes apontam para perto de 14 milhões de toneladas em junho, acima do nível do ano anterior e em linha com exportações acumuladas recordes, que já superavam o volume total de 2025 no fim de maio. Em termos gerais, a oferta sul-americana é mais do que suficiente para cobrir a demanda adicional da Ásia.
Nesse contexto, a soja dos EUA enfrenta um 2025/26 difícil. Em 11 de junho de 2026, os embarques acumulados dos EUA somavam apenas 36,6 milhões de toneladas, queda de 20% na comparação anual, com as vendas totais em 40,6 milhões de toneladas (‑17,3%). Os embarques para a China recuaram de forma particularmente acentuada: as exportações foram de apenas 11,76 milhões de toneladas, ante 22,48 milhões de toneladas um ano antes, e as vendas totais para a China caíram quase 47%, para 11,96 milhões de toneladas, deixando um saldo não embarcado mínimo de cerca de 0,2 milhão de tonelada. A combinação da supersafra brasileira, dólar forte e padrões de comércio em evolução corroeu a competitividade dos EUA.
O USDA ainda projeta uma recuperação parcial em 2026/27, com as exportações de soja dos EUA estimadas em cerca de 44,4 milhões de toneladas, alta de quase 8% em relação a 2025/26. Contudo, essa perspectiva se apoia fortemente em expectativas de melhora nas relações comerciais EUA–China e de uma moderação na vantagem relativa de preços do Brasil — pressupostos que os fluxos atuais de comércio ainda não validam plenamente.
China Focus & Trade Flows
A China continua sendo o principal centro de demanda e a ilustração mais clara das mudanças nos fluxos comerciais. Em janeiro–abril de 2026, as importações chinesas de soja do Brasil alcançaram 16,1 milhões de toneladas, alta de 11% na comparação anual, e responderam por 59,3% do total importado. Nos cinco primeiros meses do ano, mais de 60% de todas as chegadas de soja à China vieram do Brasil. Isso aprofunda o realinhamento estrutural em curso há várias safras e reforça a dominância do Brasil no mercado chinês. Analistas esperam que a participação brasileira permaneça elevada em 2026 graças ao excedente exportável e às vantagens tarifárias.
Em forte contraste, os fluxos de origem nos EUA para a China despencaram. No primeiro trimestre de 2026, a China importou apenas 3,41 milhões de toneladas de soja dos EUA, uma queda acentuada de 70,5% em relação ao ano anterior. As razões são três: sobreposição com o pico de oferta da América do Sul, preços relativamente elevados dos EUA agravados por um dólar mais forte e ajustes contínuos nas estruturas de comércio bilateral, que incentivam os compradores chineses a priorizar cargas brasileiras. Embora tenham ocorrido vendas pontuais dos EUA para a China em momentos de recuo de preços, o padrão geral segue sendo de perda sustentada de participação de mercado pelos EUA.
Para o mercado doméstico chinês, essa mudança de origem melhora a segurança do abastecimento ao diversificar dentro da América do Sul, mas aumenta a exposição aos riscos logísticos e climáticos do Brasil. Também levanta questões estratégicas em torno do equilíbrio de oferta de longo prazo e da dependência de importações, especialmente porque a área doméstica de soja é limitada pela concorrência com outras culturas e por prioridades de política agrícola.
Weather & Regional Outlook
As condições climáticas nas principais regiões produtoras de soja estão sazonalmente mistas, mas ainda não ameaçam o quadro confortável de oferta global. No Brasil, a colheita 2025/26 está em grande parte concluída, e a atenção se volta para armazenagem e logística de exportação, em vez de produtividade. O excesso de umidade no solo em partes do sul da Argentina, mais cedo na safra, retardou o andamento da colheita, mas não alterou de forma relevante a narrativa de superávit global.
Para a China, a perspectiva de curto prazo na faixa nordeste de produção de soja (Heilongjiang, Jilin, Mongólia Interior) na próxima semana indica condições amplamente favoráveis: temperaturas próximas da normalidade e chuvas esparsas, apoiando o estabelecimento das lavouras sem estresse acentuado. Chuvas fortes localizadas podem afetar temporariamente os trabalhos de campo, mas é improvável que prejudiquem as perspectivas de oferta nacional. Com a dependência de importações acima de 80%, o balanço de curto prazo da China continuará a ser determinado mais pelos fluxos marítimos do Brasil do que pelo clima nas lavouras domésticas.
Trading Outlook (Next 1–4 Weeks)
- Bias: Levemente baixista a lateral para a soja de referência, já que a safra recorde da América do Sul e o fraco desempenho exportador dos EUA superam o risco sazonal de clima nos EUA.
- Para indústrias esmagadoras na China: Continuar priorizando ofertas brasileiras onde a logística permitir; aproveitar a fraqueza global atual para estender cobertura até o 3T, mas manter alguma flexibilidade para eventuais altas ligadas ao clima nos EUA.
- Para importadores na Europa: Diferenciais atrativos do Mar Negro e do Brasil justificam escalonar compras em recuos de preço, especialmente para segmentos não transgênicos, em que as ofertas da Ucrânia permanecem competitivas frente à soja dos EUA.
- Para produtores: Considerar hedge incremental em repiques de preço motivados por notícias de clima nos EUA, já que o peso estrutural da oferta brasileira e a guinada da China para longe da origem EUA limitam altas sustentadas.
3-Day Regional Price Indication (Directional)
- CBOT futures (EUR basis): Tendência a operar de lado a ligeiramente em baixa, com risco moderado de queda se o ritmo de exportação do Brasil permanecer forte e as condições nos EUA seguirem benignas.
- Brazil export FOB (EUR/t): Estável a levemente mais fraco, pressionado por pesados embarques no curto prazo, mas sustentado pela demanda ativa da China.
- US Gulf FOB (EUR/t): Viés levemente baixista, já que os EUA enfrentam dificuldade para atrair compras adicionais da China; quaisquer altas puxadas por clima tendem a ser usadas por exportadores para vender.
- Chinese coastal import CFR (EUR/t): Largamente estável, com níveis de basis refletindo a forte disponibilidade brasileira; leve queda é possível se as taxas de frete recuarem.