Mercado de milho: exportações recordes da Argentina remodelam a demanda do Norte da África
As exportações recordes de milho da Argentina, as compras do Norte da África, o Mar Negro restrito e a UE afetada pela seca remodelam o comércio global de milho. Tendências de preços, riscos e perspectivas para 3 dias.
Preços
As indicações nominais à vista mostram um quadro misto, mas amplamente firme, ao longo dos principais corredores de exportação. O milho amarelo para ração ucraniano, com origem em Odesa, é cotado a EUR 0.18 FCA e EUR 0.159 FOB, refletindo ofertas competitivas do Mar Negro, mas também os prêmios de risco persistentes relacionados à logística e ao seguro. O milho francês FOB Paris permanece em EUR 0.25, enquanto o milho alemão para ração é negociado em torno de EUR 0.30 EXW Drentwede, registrando uma leve alta na última semana. O amido de milho orgânico indiano FOB Nova Délhi permanece elevado em EUR 1.30, evidenciando a continuidade da força nos segmentos de maior valor agregado.
Mudanças na oferta e na demanda
A Argentina emergiu como o fornecedor decisivo no ciclo atual. As exportações de milho em agosto–setembro devem atingir cerca de 10 milhões de toneladas, mais de três vezes os 3 milhões de toneladas típicos para esse período, impulsionadas por uma colheita de aproximadamente 71.7 milhões de toneladas, cerca de 20% acima do recorde anterior. O Norte da África tornou-se o principal mercado de crescimento: os embarques argentinos para a região aumentaram cerca de 45%, para 6.5 milhões de toneladas, nos primeiros sete meses de 2026, com as compras do Marrocos subindo aproximadamente 133%, para 1.55 milhões de toneladas; as do Egito, 48%, para 2.4 milhões de toneladas; e as da Argélia, 10%, para 2.3 milhões de toneladas.
Esses fluxos estão substituindo diretamente as origens ucraniana e da UE. As exportações da Ucrânia continuam limitadas pelas interrupções no Mar Negro e, em alguns momentos, pelos baixos níveis de água no Danúbio, que restringem a capacidade das rotas fluviais alternativas e mantêm os custos logísticos voláteis. Na Europa, um verão de calor extremo e seca reduziu acentuadamente as perspectivas de produtividade do milho para grão; análises da UE apontam para produtividades significativamente menores nas culturas de verão, com a Europa ocidental e central — notadamente França e Alemanha — particularmente afetadas pelos déficits hídricos e pelo estresse térmico que reduziram o enchimento dos grãos.
Ao mesmo tempo, a expansão da indústria brasileira de etanol de milho está absorvendo uma parcela crescente da produção doméstica. O crescimento estrutural dos biocombustíveis à base de milho, combinado com investimentos recentes em novas plantas e infraestrutura, está reduzindo gradualmente a disponibilidade do país para exportação e deslocando parte da demanda global de importação para a Argentina e o Mar Negro.
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Fundamentos
O cenário fundamental é definido por um excedente excepcionalmente grande em uma origem, contraposto a déficits relacionados ao clima e à guerra em outras regiões. A safra argentina de 2025/26, de aproximadamente 71.7 milhões de toneladas, não apenas estabelece um novo recorde nacional, mas também permite que os exportadores registrem vendas antecipadas recordes para o Norte da África e outras regiões deficitárias. Essa oferta concentrada, contudo, aumenta a dependência da logística e da estabilidade política argentinas, um risco importante de médio prazo para compradores que diversificaram suas fontes para longe da Ucrânia e da UE.
Na Europa, as perdas de produção provocadas pela seca em produtores importantes, como França e Alemanha, apertaram os balanços locais de ração e elevaram as referências internas de preços em relação às origens exportadoras. Instituições europeias informam que as culturas de verão, incluindo o milho para grão, sofreram com o calor persistente e déficits hídricos excepcionais, implicando produtividades muito abaixo das médias recentes e, em alguns locais, perdas totais da safra. Isso sustenta o prêmio do milho francês e alemão em relação às ofertas do Mar Negro e da Argentina e garante que a Europa permaneça estruturalmente dependente de importações durante o novo ano comercial.
Do lado da demanda, compradores do Norte da África estão garantindo ativamente volumes para compensar tanto os déficits ucranianos quanto a volatilidade de sua própria produção relacionada ao clima. O forte aumento interanual das compras da Argentina ressalta a robustez da demanda subjacente por ração, particularmente nos setores avícola e pecuário, que têm flexibilidade limitada para substituir o milho no curto prazo. Enquanto isso, a demanda industrial brasileira por meio das usinas de etanol oferece uma força de compra relativamente inelástica em relação aos preços, contribuindo para um balanço global efetivo de exportação mais apertado do que os números de produção headline poderiam sugerir.
Clima e perspectivas para as lavouras
No curto prazo, o clima é um fator de baixista a neutro na América do Sul, mas continua dando suporte aos preços na Europa. Na UE, boletins oficiais destacam que as condições persistentemente quentes e secas durante agosto danificaram severamente as culturas de verão, especialmente o milho, nas regiões ocidentais e centrais, com apenas um alívio limitado esperado pela chegada tardia de condições mais frescas e úmidas, incapazes de reverter as perdas de produtividade. Isso consolida a necessidade de maiores importações em 2026/27.
Na América do Sul, a Argentina está concluindo sua grande safra de 2025/26 sem relatos de ameaças climáticas relevantes no fim da temporada, reforçando seu papel como fornecedora confiável no curto prazo. As perspectivas para a próxima safrinha de milho do Brasil estão estreitamente ligadas ao momento das chuvas e à evolução do La Niña; embora as condições atuais sejam amplamente adequadas, o risco de médio prazo é que qualquer decepção na produção causada pelo clima coincida com uma forte demanda doméstica por etanol, apertando ainda mais os excedentes exportáveis.
Perspectivas de negociação (próximas 2–4 semanas)
- Importadores do Norte da África e do Oriente Médio: Considerem ampliar a cobertura da origem argentina enquanto os programas de exportação operam em ritmo recorde e a logística permanece fluida. Equilibrem isso com alguma exposição ao milho ucraniano ou do Mar Negro caso os fretes e os prêmios de risco diminuam.
- Consumidores de ração da UE: Com a produção francesa e alemã limitada e os preços em EUR 0.25 FOB Paris e cerca de EUR 0.30 EXW Alemanha, avaliem cobertura incremental para posições de entrega próxima, mas mantenham flexibilidade para migrar para milho mais barato do Mar Negro ou da Argentina à medida que fretes e diferenciais se movimentem.
- Produtores do Mar Negro e da UE: A demanda internacional atual sugere baixa limitada nos diferenciais; considerem ampliar as proteções em altas impulsionadas por temores climáticos na América do Sul ou por novas interrupções no corredor do Mar Negro.
- Participantes do mercado brasileiro: Monitorem de perto a demanda de milho do setor de etanol e as interações com o programa de exportação; qualquer mudança de política ou gargalo de infraestrutura poderá reprecificar rapidamente a paridade doméstica em relação à exportação e abrir janelas de arbitragem para compradores regionais.
Perspectiva direcional dos preços em 3 dias
| Mercado | Termo | Nível atual (EUR) | Viés em 3 dias |
|---|---|---|---|
| Ucrânia, milho amarelo para ração de Odesa | FCA | 0.18 | Levemente mais fraco a lateral, acompanhando o sentimento de risco no Mar Negro |
| Ucrânia, milho de Odesa | FOB | 0.159 | Lateral; competitivo, mas limitado pela logística e pelo frete |
| França, milho de Paris | FOB | 0.25 | Firme; a safra da UE afetada pela seca sustenta o prêmio em relação ao Mar Negro |
| Alemanha, milho para ração de Drentwede | EXW | 0.30 | Lateral a levemente mais firme devido à oferta local restrita |