Rali do Café Encontra a Parede da Safra Brasileira com Crescente Risco de El Niño
Preços do café seguem sustentados por estoques enxutos e risco de El Niño apesar da grande safra 2026/27 do Brasil. Análise de preços, oferta, clima e perspectivas de trading.
Prices
A BMI elevou sua projeção de preço médio do café para 2026 para 307 centavos/lb (cerca de EUR 6,30/kg), ante 293 centavos, depois que as cotações se recuperaram de 240,9 centavos/lb em 9 de junho para 332 centavos/lb em 18 de agosto e têm registrado média de cerca de 316 centavos/lb até agora neste trimestre. Este rali é mais forte do que se previa anteriormente, mas ainda está alinhado com o pano de fundo estrutural de estoques enxutos e risco de oferta elevado.
Os diferenciais físicos no Vietnã reforçam essa firmeza. Ofertas FOB recentes em Hanói mostram café robusta verde beneficiado úmido em torno de EUR 4,40/kg (scr18) e EUR 4,10/kg (scr16), enquanto o robusta não lavado é negociado próximo de EUR 3,90–4,05/kg, dependendo da peneira. A arábica vietnamita grau 1 e 2 está em torno de EUR 7,80/kg e EUR 6,75/kg, respectivamente, amplamente estáveis nas últimas três semanas, indicando que a volatilidade dos futuros ainda não se traduziu em movimentos bruscos nas cotações físicas vietnamitas.
Supply & Demand
A oferta de curto prazo é dominada pela grande safra 2026/27 do Brasil. A BMI projeta a produção global de café em 188,9 milhões de sacas em 2026/27, alta de 6% ano a ano, com a produção brasileira avançando 14,1% para 71,9 milhões de sacas e o Vietnã subindo modestos 0,6% para 31,9 milhões de sacas. Relatos de colheita no Brasil indicam que cerca de 97% da safra 2026/27 havia sido recolhida no fim de agosto, confirmando ampla disponibilidade física ao longo do 4T26.
Esse salto de produção amplia o superávit global de 2026/27 para confortáveis 14,4 milhões de sacas. No entanto, a BMI espera que o superávit se estreite acentuadamente para 9,2 milhões de sacas em 2027/28 – uma redução de 36%, diminuindo a margem de segurança do mercado contra choques climáticos. Com estoques globais já descritos como historicamente enxutos, isso significa que qualquer frustração de produção no Brasil ou na Ásia se transmitiria de forma desproporcional aos preços.
Fundamentals & Weather
A narrativa de suporte no médio prazo se baseia em uma safra brasileira mais fraca e em risco climático elevado. A produção de arábica do Brasil entrará na fase baixa de seu ciclo bienal em 2027/28, com a BMI projetando queda de 5,1% ano a ano na produção total brasileira, para 68 milhões de sacas. Essa redução desfaria parte do superávit atual e voltaria a apertar o balanço global justamente quando a demanda continua crescendo de forma constante.
O El Niño é uma incerteza central, especialmente para o robusta asiático. Mais da metade do robusta global vem de Vietnã, Indonésia e Índia, regiões historicamente propensas a redução de chuvas sob El Niño. Previsões climáticas regionais recentes apontam para chuvas abaixo da média em grande parte do sul da ASEAN e condições mais secas que a média para o Vietnã no fim de 2026, em linha com um El Niño em fortalecimento até o fim do ano.
Embora a BMI avalie que os padrões de chuva de 2026 até aqui representem risco limitado para a safra 2026/27, a verdadeira vulnerabilidade está no ciclo 2027/28. Se a secura reduzir as reservas hídricas antes da janela crítica de frutificação e desenvolvimento dos grãos no 2T27, os rendimentos de robusta podem ficar aquém das expectativas. Ao mesmo tempo, produtores em origens como Etiópia, Honduras e Nicarágua enfrentam custos mais altos de fertilizantes em meio a tensões geopolíticas, o que pode conter o uso de insumos e limitar o potencial de produtividade mesmo onde o clima é mais neutro.
Outlook 2026–2027
O mercado provavelmente se dividirá em duas fases distintas. Até o fim de 2026 e início de 2027, a chegada da grande safra 2026/27 do Brasil e o aumento do ritmo das exportações podem gerar episódios de pressão baixista ou consolidação nos futuros, especialmente se as preocupações com qualidade forem contidas e a logística funcionar sem problemas. Participantes de mercado já observam que os embarques brasileiros no início da temporada estão mais fortes que no ano passado, embora limitados em algumas áreas por chuvas anteriores.
Depois dessa janela, o foco se voltará para a combinação de uma safra brasileira menor em 2027/28, possível estresse relacionado ao El Niño no robusta asiático e um superávit global em estreitamento. Nesse cenário, as atuais projeções da BMI de média de 307 centavos/lb em 2026 apontam para manutenção do suporte aos preços em 2027, com risco de alta caso perdas em robusta ou revisões para baixo nos rendimentos brasileiros se materializem. Em essência, o mercado pode relaxar brevemente à medida que a safra brasileira é escoada, mas a história de aperto estrutural permanece bem viva.
Trading & Risk Management View
- Torrefadoras: Aproveitar eventual fraqueza de preços entre 4T26 e 1T27, gerada pelo volume pesado de café brasileiro, para estender a cobertura até meados de 2027, especialmente para blends com maior peso de robusta. Priorizar origens com menor exposição ao El Niño sempre que possível.
- Produtores no Vietnã/Indonésia: Considerar hedge incremental em ralis acima da região de meados de 300 centavos/lb, mas manter flexibilidade diante do risco elevado de queda de produção decorrente do clima em 2027/28. Monitorar a umidade do solo e os custos locais de insumos será fundamental para calibrar as vendas.
- Traders/Especuladores: O pano de fundo favorece a compra em correções de médio prazo em vez de perseguir picos. Estruturas de opção que financiem exposição de alta (por exemplo, call spreads) podem ser atrativas antes do principal período sensível ao El Niño para florada e frutificação no início de 2027.
- Foco de risco: Acompanhar os indicadores de intensidade do El Niño, anomalias de chuva nas Terras Altas Centrais do Vietnã e nas zonas cafeeiras da Indonésia, a florada da arábica brasileira 2027/28, a trajetória dos preços de fertilizantes e quaisquer revisões nas estimativas de superávit.
Short‑Term Regional & Price Direction (Next 3 Days)
- Futuros ICE: Com a colheita brasileira essencialmente concluída e o clima ficando sazonalmente mais seco, o comportamento dos preços nos próximos dias tende a ser em intervalo, com viés levemente baixista, à medida que as notícias de oferta dominam e os temores em torno do El Niño permanecem mais voltados ao médio prazo.
- Robusta FOB Vietnã: As ofertas locais em torno de EUR 4,0–4,4/kg devem permanecer amplamente estáveis, sustentadas pelas necessidades de cobertura dos exportadores, mas limitadas pela ampla disponibilidade global de arábica.
- Basis de exportação do Brasil: Os níveis de basis podem aliviar marginalmente à medida que mais café 2026/27 chega aos portos, embora quaisquer rebaixamentos de qualidade ou gargalos logísticos possam rapidamente reinjetar volatilidade.